Este espaço surgiu para reunir e difundir análises que vêm espocando no calor do asfalto ocupado pelas passeatas. É instrumento de intervenção, mas não se arvora nenhuma função de direção. Seu objetivo é claro: politizar! Aqui tem espaço todas as manifestações que apontam para a centralidade da ação política transformadora como desfecho necessário das mobilizações multitudinárias. Porque a hora é agora.
"As ruas fervem em todo o Brasil. Jovens, e outros nem tanto, ocupam as cidades que o capital teima em tentar monopolizar para seu gozo exclusivo, exigindo transportes mais baratos e, cada vez mais, direito à livre manifestação. Com muito vinagre e fogo no lixão urbano, os manifestantes rebelados afrontam as bombas de gás, balas de borracha, e outras nem tanto, da repressão policial. Nos (tele)jornais, querem dirigir o que não puderam evitar, apresentando um vilão fantasmático: “a corrupção!”, para tentar desviar o foco da materialidade das contradições sociais que emergem com as centenas de milhares de pessoas nas ruas. Para eles, há os pacíficos e os vândalos. Bandeiras nacionais e hinos patrióticos representam a “verdadeira cidadania”, os partidos de esquerda seriam os “aproveitadores”. A linha é tênue, e varia conforme os humores dos manifestantes e as “sondagens de opinião”. Há quem, nas próprias manifestações, reproduza valores desse esforço ideológico para direcionar as mobilizações para a zona de conforto da classe dominante. Mas, os jornalistas dos monopólios da comunicação precisam se refugiar nos helicópteros e estúdios, porque sabem que a maioria ali não acredita no que dizem e nas ruas podem também ser brindados com o escracho dos que lutam. Lutam pelo que? O que explica a explosividade e a rapidez surpreendentemente desses acontecimentos? Aonde podem chegar? Qual o seu potencial? E os limites que precisam ultrapassar?" - Com esta breve introdução iniciamos nosso blog em junho de 2013. A luta continua e por isso este espaço continua aberto às analises!
domingo, 23 de junho de 2013
A multidão nas ruas: construir a saída de esquerda para a crise política, antes que a reação imprima sua direção
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Porque eu gosto das segundas-feiras
Podemos, porém, avaliar que há algo mais por trás desse rápido despertar das mobilizações de massa. Um caminho para tanto é localizar quais são os principais alvos das manifestações. Nos telejornais, especialmente do maior grupo empresarial monopolista das comunicações no Brasil (a Rede Globo), cujos(as) repórteres tem que se manter distantes e anônimos(as) para não serem hostilizados(as) pelos(as) manifestantes, percebe-se enorme dificuldade em manter a linha editorial de alguns dias atrás, que classificava as primeiras manifestações como baderna e vandalismo. Agora se veem obrigados a baixar o tom e reconhecer o caráter de massa dos movimentos. Isso porque os monopólios das comunicações são um dos alvos mais evidentes das manifestações. As pessoas reagem, ainda que de forma contraditória em alguns momentos, contra o que percebem ser um instrumento claro de imposição de “consensos” em torno de valores que lhes são estranhos, quando não hostis, de pacificação dos conflitos a partir da valorização da repressão e da conformação à ordem dominante.
Em suma, os alvos aparentemente secundários (cada vez mais primários) dos protestos contra os reajustes das tarifas – os monopólios de mídia em seu esforço incessante por moldar corações e mentes aos desígnios da ordem do capital e o braço policial/repressivo de um Estado que nunca abdicou de sua face mais dura, na contrarrevolução permanente que caracteriza a autocracia burguesa no Brasil (para lembrarmos Florestan Fernandes) – indicam uma novidade estimulante das manifestações em curso. Elas prenunciam uma possibilidade de ampliação do dissenso, um clima de levante latente, contra as duas faces mais fortes, que combinadas trabalham para a contenção da luta de classes e caracterizam a dominação burguesa na atualidade brasileira: a imensa rede de aparelhos de criação de consensos e o, nunca desmontado / sempre incrementado, aparato de coerção repressiva.
Claro, para que esse potencial se transforme em uma efetiva onda de mudanças é preciso muito mais. É preciso que a geração de 40/50 anos que foi às ruas nos anos 1980 para exigir as “Diretas Já!” e o fim da ditadura, assim a geração dos 35/40, que no início da década de 1990 pintou a cara para bradar “Fora Collor”, voltem às ruas ao lado de seus filhos, para lutar por transformações profundas. E como cresceria o movimento se sindicatos e centrais convocassem seus filiados para pararem o trabalho e engrossarem as próximas manifestações. E se sem-tetos, sem-terras, atingidos pelo mega-eventos, cercados pelos caveirões e UPPs, cerrassem fileiras num só coro dos descontentes. E se os partidos de esquerda, especialmente os que ainda acham que o Congresso Nacional é o palco das grandes lutas, acordassem para a centralidade das ruas. E se um programa coerente de reivindicações antissistêmicas demonstrasse claramente que as tarifas sobem, a polícia bate e a mídia faz coro porque assim funciona a sociabilidade do capital nesta nossa grande periferia “emergente”.
Cabe a nós plantarmos agora, no asfalto das ruas, essas flores da primavera brasileira, pois o inverno já dura demais nestes trópicos ensolarados.