"As ruas fervem em todo o Brasil. Jovens, e outros nem tanto, ocupam as cidades que o capital teima em tentar monopolizar para seu gozo exclusivo, exigindo transportes mais baratos e, cada vez mais, direito à livre manifestação. Com muito vinagre e fogo no lixão urbano, os manifestantes rebelados afrontam as bombas de gás, balas de borracha, e outras nem tanto, da repressão policial. Nos (tele)jornais, querem dirigir o que não puderam evitar, apresentando um vilão fantasmático: “a corrupção!”, para tentar desviar o foco da materialidade das contradições sociais que emergem com as centenas de milhares de pessoas nas ruas. Para eles, há os pacíficos e os vândalos. Bandeiras nacionais e hinos patrióticos representam a “verdadeira cidadania”, os partidos de esquerda seriam os “aproveitadores”. A linha é tênue, e varia conforme os humores dos manifestantes e as “sondagens de opinião”. Há quem, nas próprias manifestações, reproduza valores desse esforço ideológico para direcionar as mobilizações para a zona de conforto da classe dominante. Mas, os jornalistas dos monopólios da comunicação precisam se refugiar nos helicópteros e estúdios, porque sabem que a maioria ali não acredita no que dizem e nas ruas podem também ser brindados com o escracho dos que lutam. Lutam pelo que? O que explica a explosividade e a rapidez surpreendentemente desses acontecimentos? Aonde podem chegar? Qual o seu potencial? E os limites que precisam ultrapassar?" - Com esta breve introdução iniciamos nosso blog em junho de 2013. A luta continua e por isso este espaço continua aberto às analises!

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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Nas Jornadas de Junho a juventude votou com os pés

por Valério Arcary


Os camponeses estão votando com os pés.

Vladimir Ilitch Ulianov, alias, Lenin, quando informado que os camponeses estavam desertando em massa do Exército Czarista na Primeira Guerra Mundial.
Na Alemanha Oriental, (os) cidadãos decidiram (de forma) desorganizada, espontânea, embora decisivamente facilitada pela decisão da Hungria de abrir suas fronteiras – de votar com seus pés e seus carros con­tra o regime, migrando para a Alemanha Ocidental. Em dois meses, 130 mil alemães orientais tinham feito isso (…), antes da que­da do Muro de Berlim. (…) Foi uma demonstração didática da máxima de Lenin de que a votação com os pés dos cidadãos podia ser mais eficaz do que a votação em eleições.[1]
Eric Hobsbawm
Um dos traços fundamentais da nova situação aberta neste “inverno do nosso descontentamento” brasileiro, para lembrar o fascinante romance de John Steinbeck sobre a situação nos Estados Unidos nos anos de depressão após a crise de 1929, é que a mobilização das massas está em relativo descompasso com a consciência. A ação é mais avançada que a consciência. Muito mais avançada, na verdade.
As massas juvenis nas ruas sabem muito melhor o que não querem do que aquilo que querem. Todas as experiências históricas confirmam que a primeira onda de uma revolta começa na forma do Não! Basta! Chega! Mas esse momento é só o começo. São as mobilizações populares que abrem a possibildade de mudar as sociedades. A evolução da consciência dependerá da luta política. Por isso as responsabilidades da esquerda aumentam.
Na semi-insurreição na Argentina em 2001, a forma da revolta popularizou o Que se vayan todos(ou Fora Todos) para expressar a indignação, repúdio e desprezo por todos os partidos eleitorais do regime que se alternavam no poder, mas mantinham a mesma política. O que ajuda a entender o descompasso entre o ódio às formas que assume a dominação, seja o regime político uma ditadura, como no norte da África e Médio Oriente a partir de 2011, ou democracias eleitorais, como na Grécia, Espanha ou Portugal em 2012, é que a raiva amadurece mais rápido que o apoio a uma alternativa política anticapitalista.
O Brasil acompanha, finalmente, uma tendência internacional dos últimos anos pós explosão da crise econômica de 2008. Entramos atrasados. A história explica este padrão: a rebelião popular não é nunca prematura. As massas que entram em luta não são impacientes. Ao contrário, são muito pacientes. Suportam por anos, às vezes, por décadas, condições de vida atrozes, com a raiva crescendo nos dentes,  na esperança de que a vida possa mudar pelo seu esforço individual.
É somente quando todas as outras possibilidades se esgotaram, incluindo a ilusão nas promessas dos governantes, que grandes mobilizações, na escala de centenas de milhares, são possíveis. Entre a crise e a percepção da crise há sempre um intervalo de tempo necessário para que amplos setores de massas despertem para a terrível descoberta de que sem luta coletiva a vida não vai mudar. Esta descoberta para as massas é assim mesmo, é algo terrível. Porque sabem que vão ter de medir forças e, com razão, têm medo. Na luta, milhões estão aprendendo a perder o medo, e não há nada mais extraordinário que isso.
Só quando o mal estar acumulado, subterrânemente, nas “placas tectônicas” da vida social atinge um grau muito elevado de concentração, o chão começa a se mover. Os dirigentes do PT publicaram, há poucos meses atrás, uma cartilha sobre os dez anos de governo se vangloriando de que o Brasil mudou. Enganam-se a si mesmos se ainda acreditam em seus publicitários. O mais importante nos últimos dez anos de reformismo quase sem reformas é que o Brasil não mudou significativamente. O que beneficiou o PT e os governos até junho foi que a consciência média resignada dos trabalhadoras era de que “isso era o melhor que era possível”. Em outras palavras, as baixíssimas expectativas do povo. O que se explica, também, pela autoridade do lulismo sobre a geração mais madura do proletariado.
Junho foi só o começo
Uma análise das razões desta explosão em Junho, e não antes nem depois, deve considerar muitos fatores. O aumento das tarifas de ônibus foi só a centelha, uma  faísca que acendeu a fogueira. Tudo se precipitou a partir da brutal repressão do dia 13 de junho em São Paulo. Não obstante, só podemos compreender a dimensão dos protestos no Brasil se considerarmos: (1) o impacto da crise econômica internacional que condenou o país à estagnação nos últimos dois anos; (2) o congelamento de uma mobilidade social que foi no passado recente muito pequena, rígida, ou seja, empregos precários e salários baixos para uma geração mais escolarizada; (3) o fim da percepção de alívio econômico-social que beneficiou todos os governos reeleitos, fossem liderados pelo PT ou pela oposição de direita; (4) o impacto mundial de processos revolucionários que incendeiam a subjetividade de uma juventude frustrada, socialmente, com a terrível decadência dos serviços públicos e irada, politicamente, com a corrupção generalizada dos partidos nos governos; (5) o esgotamento da experiência da geração mais jovem com o governo liderado pelo PT; (6) a boçalidade provocativa da repressão policial que inflamou a fúria de amplos setores de massas, em especial, no contexto de uma campanha demagógica ufanista durante a Copa.
Isto posto, o que aconteceu em junho não foi fogo de palha, que arde intensamente, mas se apaga rápido. Foi só o começo. Junho já mudou a situação brasileira. Nada será como antes. Não há retorno para a estabilidade institucional que vingou desde o Plano Real, a estabilização da moeda e a relação social de forças que deixou os trabalhadores na defensiva. Muitos milhares descobriram que era preciso lutar. Foram muitos milhões que aprenderam que era possível vencer.
Força e limites da primeira onda
Nossas Jornadas de Junho foram marcadas tanto pela explosividade da disposição de luta, quanto pela diversidade de reivindicações e pela acefalia. O que tem causado perplexidade e preocupação legítimas. Deslumbrar-se com a força das marchas, e desconhecer suas limitações seria um erro. Enxergar com ceticismo a dimensão destas três semanas de lutas, ou seja, perceber somente suas inconsistências, também. As ações desta primeira onda de revolta estão muito à frente da consciência. Mas, o mais importante, é que estamos diante de uma explosão contagiante de protesto popular. Foi por isso que esperamos, pelo menos, nas últimas duas décadas.
Em diferentes graus, e sob outras formas, este desenvolvimento desigual da disposição para a ação, e o grau de consciência médio entre os que lutam foi um traço comum no início de todos os grandes processos de mobilizações de massas dos últimos cem anos. Foi assim nos meses iniciais da revolução de fevereiro na Rússia de 1917, na Alemanha em novembro de 1918, nas semanas do Maio de 68 francês, ou depois do 25 de Abril em Portugal.
Diante de acontecimentos desta grandeza estamos sempre diante do duplo perigo – simétrico – do fascínio ou da descrença. A idealização do que deveria ser um processo revolucionário não é incomum, mas é pensamento mágico, portanto, desejo. Se for confirmada uma importante adesão à greve geral convocada pelas Centrais Sindicais para o dia 11 de julho, já poderemos falar da entrada em cena do proletariado. O que confirmaria uma mudança qualitativa da situação: uma nova relação de forças entre as classes no país, muito mais desfavorável à dominação burguesa, muito mais favorável para a transformação que as ruas estão exigindo.
A transição para uma situação pré-revolucionária .
Estamos vivendo a primeira onda de um processo revolucionário? Tudo o que aconteceu até agora sugere que estamos em uma situação transitória para uma etapa pré-revolucionária.
Revoluções são processos que ou avançam ou recuam, e atravessam uma variedade de conjunturas. As insurreições são, frequentemente, confundidas com revoluções, mas são somente o momento culminante de um processo, o momento decisivo. A maioria das situações revolucionárias foram derrotadas antes que tivesse chegado a hora em que a luta pelo poder era possível com razoáveis chances de vitória.
A relação social de forças pode ou não evoluir favoravelmente para os trabalhadores. É bom, também, lembrar, que uma situação pré-revolucionária não é o mesmo que uma situação revolucionária. A análise deve ser, portanto, prudente, porque a forma popular do levante da juventude ainda não permite avaliar o estado de espírito, o ânimo, ou seja, a disposição de luta do conjunto dos trabalhadores. A geração proletária com mais de trinta e cinco anos, que é a maioria, ainda não entrou em cena.
Mas estão presentes, uns mais maduros, outros menos, vários dos outros fatores de uma situação pré-revolucionária: (a) uma impressionante divisão e confusão na classe dominante: não se entendem sobre muita coisa, a não ser que é preciso que a política volte a ser um assunto para os seus profissionais, em outras palavras, estabilidade política. Em Brasília os últimos dez dias foram um frenesi. Cada partido tem uma opinião diferente, não se constroem consensos, e o governo propôs constituinte para recuar no dia seguinte. A direção de cada um dos partidos burgueses tem, publicamente, as mais diferentes posições. Não sabem se devem ou não apoiar uma repressão ainda mais dura. Não têm a menor ideia do que fazer se a juventude não sair das ruas, e se interrogam sobre o que pode acontecer se vingar a proposta de greve geral de 11 de julho; (b) as classes médias, que são o colchão de estabilidade do regime, se deslocaram nos grandes centros urbanos, as doze cidades com pelo menos um milhão de habitantes para o apoio à juventude; (c) as grande marchas não deixaram de sair às ruas, mesmo depois de vários ataques repressivos violentíssimos, e avança uma generalização do sentimento de profundo mal estar.
Não parece provável que a aprovação do plebiscito para uma reforma política que decidirá, por exemplo, se o voto será ou não distrital, se os suplentes de senadores devem continuar existindo ou não, ou se as coligações partidárias devem ou não ser verticalizadas, seja suficiente para acalmar as ruas. Esta não é a agenda das luta.
Na escola da luta os jovens aprenderam a votar com os pés. Descobriram que é preciso lutar e que é possível vencer. A hora é de avançar! Greve Geral 11 de Julho!

[1] HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX. Trad. Marcos Santarrita. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. p 443-4.

Publicado originalmente em http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=1605



sexta-feira, 28 de junho de 2013

Duas estratégias: Unir a esquerda para avançar as mobilizações, ou para proteger o governo Dilma?

por Valério Arcary


Todos juntos nessa luta pela unidade popular,
Mas, se estamos todos juntos,
contra quem vamos lutar?

Versos cantados por delegados da esquerda socialista  no Congresso da UNE, em resposta à moção que defendia a estratégia de unidade da toda a oposição à ditadura militar, sob a liderança da burguesia liberal que se expressava através do MDB de Tancredo e Montoro, contra a unidade operária- estudantil.




Os ataques dos fascistas contra a esquerda produziram uma reação extraordinária durante a última semana. A defesa do direito da esquerda de ir às ruas levantando suas bandeiras vermelhas uniu muitos milhares de jovens nos últimos dias, por todo o país, em uma mobilização unitária, entusiasmada, e lúcida.

                          A unidade da esquerda nas ruas foi emocionante
      As fotos da assembléia-monstro no Largo São Francisco no Rio de Janeiro para preparar o dia 27 e a ida ao Maracanã no dia da final da Copa emocionaram a esquerda, profundamente, em todo o Brasil. Processos semelhantes se repetiram, em formas variadas, mas com o mesmo conteúdo, em Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza, Belém, e Recife, entre muitas outras cidades menores. Surgiu do enfrentamento do dia 20 de junho com os fascistas um poderoso sentimento fraterno de que precisamos nos unir para vencer. Isso foi amgnífico.
       Estamos diante da urgência da política. Os dias agora valem por meses, as semanas por anos. Tudo se acelerou. O debate aberto na esquerda pelas mobilizações das últimas três semanas coloca na ordem do dia um dilema: a esquerda precisa se unir para poder ajudar o movimento da juventude a avançar na direção de novas vitórias, sob pena de perder uma oportunidade histórica de transformação do Brasil. Uma janela de oportunidade que não se abre com facilidade. A divisão da esquerda repercutirá de forma dramática sobre as possibilidades da luta em curso, porque está aberta uma disputa sobre o destino do combate de milhões. Esses milhões estão em luta porque têm pressa.
                         Um debate de estratégia é incontornável
      Não obstante, isso não deve nos inibir de dizer que, infelizmente, existem dois grandes campos políticos na esquerda, hoje no Brasil, que remetem a um dilema de estratégia, e que vai se expressar em polêmicas táticas de todo o tipo. Estes campos têm diferenças irreconciliáveis.
   Sendo assim, é melhor debater as estratégias. Porque é mais educativo. As questões mais de fundo, que remetem ao tema da atitude diante do poder, são inescapáveis. As diferenças não são artificiais, não são produto de exageros sectários. Não são pequenas escaramuças, miúdices, picuinhas, . Estes campos são maiores que os partidos de esquerda. Porque são muitas dezenas de milhares de ativistas que se interrogam sobre qual deve ser o caminho a seguir. A imensa maioria não têm militância partidária. Comprendem a gravidade da situação. Têm boas razões para estar preocupados.

                                  Dois campos em disputa
       Em um campo estão aqueles que compreendem que a mobilização pelas reivindicações deve avançar, tendo a prioridade de unificação com os trabalhadores, ou seja, a preparação de um dia de greve geral para 11 de julho. Este campo afirma que para lutar contra os os empresários do transporte urbano, os banqueiros, os fazendeiros do agro-busness, a FIESP, não é possível dar trégua a nenhum governo.
       A nenhum significa isso mesmo, a nenhum, nem a Dilma. Depois de dez anos, ficou claro que os governos liderados pelo PT em aliança com partidos burgueses estão mais comprometidos com a preservação do pagamento da dívida pública, do que com os transportes públicos, a educação e saúde públicas. Sem romper com o pagamento da dívida pública, de onde viriam as verbas para os investimentos necessários à implantação, por exemplo, do passe livre?
       Os que nos colocamos nesta posição queremos ajudar a juventude nas ruas a continuar ocupando as avenidas com as reivindicações que ela mesma foi forjando pela sua experiência prática: conquistar o passe livre, desmilitarização das PM’s, mais verbas para educação e saúde, punição dos corruptos. E queremos agregar as reivindicações que respondem às necessidades do proletariado: o aumento dos salários e a redução da jornada de trabalho, por exemplo, ou a anulação da reforma da previdência, e a suspensão dos leilões de privatização do petróleo do pré-sal, e tantas outras.
      Os termos do dilema, que é sempre uma escolha difícil são, portanto, terríveis, mas claros: Dilma está disposta a romper com o PMDB? Porque atrás do PMDB estão as empreiteiras com contratos milionários para a construção das grandes obras e estádios, por exemplo. E a esquerda que apoia o governo, ainda que criticamente, como as várias tendências internas do PT, o PCdB, a Consulta Popular, ou o MST, se Dilma não atender às reivindicações, e não romper com o PMDB e os ouros partidos burgueses, estão dispostas a romper com Dilma?
       Em outro campo estão aqueles que consideram que é preciso unir a esquerda para defender o governo Dilma, porque o maior perigo seria a desestabilização do governo liderado pelo PT, ou até do regime democrático. Estão, podemos admitir, comprometidos em fazer exigências ao governo Dilma. Exigências para que Dilma abra negociações com as reivindicações das massa em luta. Exigências para que o PT no governo não capitule diante do PMDB de Michel Temer e Sérgio Cabral. Ou exigências para que o PT fora do governo não capitule aos ministros do PT que aconselham moderação a Dilma. Em resumo, estão engajados em  pressionar o governo Dilma, mas não estão dispostos a romper com ele. E reafirmam que não era possível antes de junho, e continua não sendo possível, mesmo depois de milhões nas ruas, construir uma esquerda à esquerda do governo Dilma.
      
                                      É preciso lutar, é possível vencer
     Qual estratégia é o melhor caminho para vitórias populares? Qual estratégia irá prevalecer? Qual dos dois campos tem uma melhor apreciação do que está em disputa, e a melhor orientação para transformar o Brasil? Seria estupendo, realmente, fantástico, se as mobilizações de jovens e trabalhadores fossem o bastante para exercer uma pressão de classe suficiente para impor uma frente única de toda a esquerda. Essa é a vontade dos ativistas, é a vontade de todos os que sabemos contra quem lutamos. Porque para vencer, o mais elementar é saber contra quem lutamos. Saber quem são os amigos e quem são os inimigos.
      Infelizmente, nunca é assim. A pressão das lutas não é o bastante. Outras pressões políticas que, em uma interpretação de classe, respondem a pressões das classes inimigas dos trabalhadores se abatem, também, sobre a esquerda. Diante de grandes acontecimentos, ensina a experiência histórica, algumas correntes de esquerda, que mantinham posições muito distantes umas das outras, se aproximam. E outras, que estavam próximas, se afastam. Em outra etapa da vida política brasileira se apresentou, dramaticamente, o mesmo dilema para a esquerda. Com quem nos unirmos, para lutar contra quem? Ou, enunciando de outra maneira, independência ou colaboração de classes?
A polêmica do final dos anos setenta e início dos oitenta
     Em 1979/79, quando uma nova situação se abriu no Brasil, colocou-se um problema de estratégia política chave. Qual deveria ser a orientação para acelerar a derrota da ditadura militar? Estava ficando cada dia mais claro, depois das greves metalúrgicas do ABC, das greves de professores, de bancários e outros setores da classe trabalhadora, que era possível construir nas ruas uma mobilização de massas para derrotar a ditadura. A classe dominante estava, crescentemente, dividida, entre uma maioria que aceitava a abertura lenta e gradual, ou seja, uma transição para um regime democrático-eleitoral negociada com os militares, e aqueles que resisitiam, porquee temiam, em função do medo das classes populares, a ampliação das liberdades democráticas. As classes médias tinham rompido, majoritariamente, com o regime. A classe trabalhadora começava a se mexer e a ganhar confiança em sua capacidade de luta.
    A esquerda que vinha se fortalecendo nas lutas estudantis e na reorganização do movimento dos trabalhadores se dividiu em dois campos. De um lado, principalmente, o PCB, o PCdB, o MR-8, defendendo a unidade das oposições. O que significava que o monopólio da liderança política na luta contra a ditadura ficava nas mãos do PMDB. Ninguém deveria disputar com Ulysses e Tancredo a condição de porta voz das oposições. Acontece que a liderança do PMDB temia mobilizar as massas contra a ditadura, e aceitava o calendário eleitoral imposto por Geisel e Figueiredo. O PMDB não estava disposto a mobilizações de massas, porque sabia que o perigo era a entrada em cena dos trabalhadores, com sua força social de choque, seus métodos e suas greves. E o PMDB era um partido com apoio, essencial e primeiramente, empresarial.
    No outro campo estava a esquerda que se uniu em torno do projeto que nasceu das greves operárias, e das manifestações estudantis, e levou à fundação do PT em 1980, e da CUT em 1983. Este campo se posicionava contra uma transição negociada, e lutava pela derrubada da ditadura, não por uma transição negociada. Lutava pela perspectiva de um deslocamento da ditadura pelas lutas, não em conchavos no Congresso Nacional. O PMDB era o partido da oposição institucional, o PT era o partido da independência dos trabalhadores, que não aceitava que a maioria proletária continuasse a ser massa de manobra entre diferentes alas da classe dominante. Os moderados de esquerda argumentavam exatamente como agora: não é possível ultrapassar Ulysses e o PMDB pela esquerda. A luta provou que eles estavam errados. Foi porque o PT chamou às ruas e começou a campanha das Diretas já no Pacaembu que o PMDB, ainda que dividido se mexeu. O drama atual é que a maioria daqueles que foram os radicais em 1980/83, agora são os moderados. De incendiários, viraram bombeiros.
    O dilema de estratégia que se coloca agora, trinta e cinco anos depois, no entanto, é o mesmo. O papel da esquerda deve ser o de ajudar a juventude e os trabalhadores a construir um campo independente? Ou ela deve se resignar a ser um vagãozinho atrelado ao trem que é dirigido por uma ala da classe dominante contra outra ala? Só podemos escolher entre o governo Dilma ou um governo da direita? Ou esta onda de lutas pode ajudar a nova geração a retirar conclusões políticas e ir além? Não é possível pensar em um poderoso campo de oposição de esquerda, que permita ir além do reformismo quase sem reformas dos dez anos dos governos Lula e Dilma? Qual o caminho para avançar na direção da revolução brasileira?